Me olhei no espelho e tudo mudou

18:36

Um dia, sem dar muita bola, enquanto me arrumava, olhei meu reflexo no espelho - e não me reconheci. Tinha alguma coisa diferente, mas não conseguia apontar bem o que era.
Nos dias que se passaram, pessoas do meu convívio começaram a me falar sobre o quanto eu havia mudado nos últimos meses, especialmente no quesito aparência. Mas não emagreci, não fiz nenhum tratamento cosmético, não agi de nenhuma maneira que pudesse ter operado uma mudança significativa na minha pessoa. Fiquei curiosa com esse fenômeno que fez não somente eu desconhecer meu reflexo no espelho como também fez pessoas aleatórias sentirem a necessidade de me abordar para falar sobre essa incrível mudança, tão perceptível.
Outro dia abri meu guarda-roupa e não encontrei nada que tivesse vontade de usar: nem a camiseta favorita, nem a saia predileta. Até o vestido pau pra toda obra me deixou na mão... será que tudo foi sempre tão sem graça? E então comecei a sentir uma necessidade intensa de usar uma blusa branca. Assustada, percebi que não tinha blusas brancas no meu guarda-roupa. Eu nunca me senti à vontade em usar branco, o que era isso agora? Essa vontade doída me atormentou a ponto de me fazer entrar em uma caçada a todas as blusas brancas que pudessem atender às minhas recém descobertas necessidades. Encontrei, então, algumas peças que ajudaram a acalmar essa angústia, apesar de sentir que ainda faltam alguns complementos.
Certa vez, no ônibus, reparei nos brincos de uma passageira que estava perto de mim. Achei lindo e aquilo cresceu dentro de mim de tal forma que não sosseguei enquanto não achei um par igual. Mas, por que estou comprando brincos? Não era eu quem não suportava usar brincos? Que achava incômodo e feio? Então porque agora não consigo mais sair de casa sem um par de brincos pendurado nas orelhas? Que anda com um outro dentro da carteira, para não ficar sem nenhum?
Porque eu não gosto mais de tudo aquilo que antes adorava e agora estou me cercando de coisas que nunca quis?  Tudo mudou em mim: minha aparência, meu jeito de resolver os problemas, meu jeito de trabalhar, meu gosto por roupas, meu gosto musical, os livros que me interessam. Hoje eu sinto vontade de comer salada, pai amado. Bem eu, a vegetariana que queria morrer toda vez que alguém me falava "nós temos salada para você!".
A estranha que anda me encarando do outro lado do espelho.
Apesar de hoje estar mais feliz do que em qualquer outro período anterior da minha vida, não consigo deixar de me sentir desnorteada com todas essas mudanças. Deve ser uma versão amenizada do drama de se perder a memória e ter que redescobrir tudo aquilo que você era. E esse foi o outro motivo que me fez sumir do blog: como poderia vir aqui falar sobre qualquer assunto se nem mesmo me reconhecia em mim mesma?
A resposta dessa pergunta me ocorreu nesse último feriado e pareceu tão óbvia que me senti tola por não tê-la enxergado antes. O blog vai ser o caminho pelo qual vou fazer tudo acontecer, assim como sempre foi. Vamos ter que recomeçar: o desapego, a reinvenção, o retorno àquelas coisas que eu acredito.  E a melhor parte é saber que tenho todos vocês acompanhando essa jornada comigo! :)

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